Incertezas, nebulosas e outras que tais

Autores

  • Elisa Bernardo Docente de Desenho na Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa, desde 1987.

Resumo

Aos sistemas de ensino importa opor corretivos a toda e qualquer tendência para a compartimentação estanque dos saberes e a melhor maneira de o fazer é através do desenvolvimento de práticas que acolham a pluridisciplinaridade e revelem o potencial da transversalidade. Dadas as suas condições intrínsecas de acessibilidade, flexibilidade e operatividade, o desenho é potencialmente uma dessas práticas.

Com o presente artigo propomo-nos interceder claramente a favor da funcionalidade e expressividade do desenho, não tanto de si para si, mas no contributo que presta, de modo ora mais ora menos direto, à disciplina nuclear do projeto.

A necessidade incontornável destas duas disciplinas práticas – o projeto e o desenho – desenvolverem objetivos e metodologias próprios, junto dos alunos, impede o estabelecimento de relações óbvias, diretas e simples entre os dois territórios e dificulta a identificação de áreas de partilha. Porém, a partir do conceito de instrução obtusa, errática e/ou nebulosa que alguns autores fazem emergir, localizámos uma dessas áreas e demos lhe algum desenvolvimento.

No padrão de aprendizagem que caracteriza as aulas práticas tanto do projeto como do desenho, decorrente do aprender fazendo, o papel das metodologias sempre se revela decisivo. Libertando/condicionando as forças criativas do aluno, dirigem toda a dinâmica dos trabalhos e detêm grande responsabilidade nos resultados da formação. Vigiar a aplicação dos métodos e relativizar a sua eficácia parece-nos, pois, fundamental.

Debruçamo-nos aqui, concreta ainda que limitadamente, sobre os métodos do desenho, naquilo que eles possam trazer de benéfico à estruturação do pensamento projetual. E procuramos fazer ver que, promovendo a ordem e a segurança dos resultados, eles pretendem, sim, limitar as hipóteses de dispersão, mas não erradicá-la.

A nebulosidade é largamente necessária à instrução do projeto – diz-nos M. Frederick. Também os métodos do desenho não visam trazer respostas pré-estabelecidas, antes gerar fecundos sistemas de perguntas que produzem luz no nevoeiro da aprendizagem.

Palavras-chave:

Desenho, Projeto, Instrução obtusa e/ou nebulosa, Metodologias, Métodos do desenho

Referências

FREDERICK, Matthew, 101 Things I Learned in Architecture School, The MIT Press, Massachusetts,2007.

LACY, Bill, 100 Contemporary Architects – Drawings & Sketches, Thames and Hudson,

London, 1995.

MARINA, José Antonio, Teoria da Inteligência Criadora, Editorial Anagrama, Lisboa, 1995.

MOLINA, J. (Coord), Estrategias del Dibujo en el Arte Contemporáneo, Ediciones Cátedra, S.A., 2002.

MOLINA, J. J. G. (Coord.), Las Lecciones del Dibujo, Ediciones Cátedra, S. A., Madrid, 1995.

MOLINA, J., CABEZAS, L. e BORDES, J., EL manual de Dibujo – Estrategias de su Enseñanza en el Siglo XX, Ed. Cátedra, S. A., Madrid, 2003.

MOLINA, J., CABEZAS, L. e COPÓN, M., Los Nombres del Dibujo, Ed. Cátedra, S. A., Madrid, 2005.

MORIN, Edgar, La Méthode, I – La Nature de la Nature, Éditions de Seuil, Paris, 1977.

MORIN, Edgar, Repensar a Reforma, Reformar o Pensamento, Instituto Piaget, Lisboa, 2002.

RAWSON, Philip, Drawing, University of Pennsylvania Press, Philadelphia, 1987.

SCHÖN, Donald, Educando o Profissional Reflexivo, Artmed, Porto Alegre, 2000.

SIMPSON, Ian, Drawing: seeing and observation, Van Nostrand Reinhold Company Regional, New York, 1973.

TAINHA, Manuel, Entrevista por J. M. Rodrigues, in Textos de Arquitectura, Caleidoscópio, Casal de Cambra, 2006.

VIEIRA, Joaquim, O Desenho e o Projecto São o Mesmo? – Outros Textos de Desenho, FAUP, Porto, 1995.

Downloads

Publicado

2013-10-03

Como Citar

Bernardo, E. (2013). Incertezas, nebulosas e outras que tais. Revista Arquitectura Lusíada, (2), 123–129. Obtido de http://revistas.lis.ulusiada.pt/index.php/ral/article/view/246

Edição

Secção

Artigos