Há adequação do perfil de procura pelos serviços de urgência? Um estudo "ex ante" surto pandémico – Covid-19.

Autores

  • Ana Harfouche
  • Idalécio Lourenço
  • Estevão Soares dos Santos

DOI:

https://doi.org/10.34628/nc2j-3792

Resumo

Introdução: Este estudo pretendeu obter evidência sobre a adequação ou desadequação do perfil de procura à missão e à natureza dos serviços de urgência. A pergunta de partida foi: “Qual a tipologia dos episódios de urgência admitidos e a sua adequação à missão de um serviço de urgência?”


Enquadramento: Com este estudo, pretendeu-se conhecer o perfil de procura pelos serviços de urgência para fundamentar a tomada de decisão sobre a alocação de meios, prioridades dos recursos e competências que suportam a prestação dos serviços de urgência hospitalares.

É crucial conhecer o perfil dos episódios de urgência para ilustrar a perceção relacionada com a procura excessiva a estes serviços e, também, para permitir estabelecer um planeamento, quer de profissionais, quer de recursos materiais e financeiros eficientes e eficazes. Este conhecimento permite sobretudo pensar em medidas que podem ser adotadas no redireccionamento desta procura, através de fluxos de processos mais racionais do acesso para serviços menos diferenciados evitando, assim, a sobreutilização dos serviços de urgência.


Objetivo: O principal objetivo foi estudar através da caracterização dos episódios de urgência, a procura pelos seis serviços de urgência nas três unidades do Centro Hospitalar do Oeste (CHOeste): I. Unidade de Caldas da Rainha – serviço de urgência médico-cirúrgico; serviço de urgência de ginecologia/obstetrícia; serviço de urgência pediátrica; II. Unidade de Torres Vedras - serviço de urgência médico-cirúrgico; serviço de urgência pediátrica; III. Unidade de Peniche - serviço de urgência básica.


Metodologia: Tratou-se de um estudo retrospetivo, descritivo com base numa análise Univariada, sendo uma primeira intervenção analítica para conhecimento dos episódios dos seis serviços de urgência que, através de algoritmo de decisão, foram categorizados como episódios adequados ou como episódios desadequados.


Resultados: Foram analisados 192.535 episódios de urgência referentes ao período entre 1 de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2015. Em termos proporcionais, a faixa etária dos 0 aos 18 anos foi a que recorreu mais aos serviços de urgência, com cerca 1.041 episódios de urgência por mil habitantes, enquanto os adultos dos 19 aos 64 foi a faixa etária que recorreu menos aos serviços de urgência, com cerca de 400 episódios de urgência por mil habitantes. Acima de 65 anos encontrou-se um rácio de 697 episódios de urgência por mil habitantes.

Discussão: O rácio agregado dos serviços de urgência do CHOeste foi de 586 admissões na urgência por mil habitantes, valor inferior ao nacional, que foi de 705 admissões na urgência por mil habitantes. Deste total de admissões cerca de 55% são de prioridade e gravidade baixa, o que se definiu por desadequados, portanto, potencialmente evitáveis. Os comportamentos que os cidadãos da área de influência do CHOeste optaram são, na sua maioria, o imediato recurso às urgências hospitalares, sem passar primeiro pelo centro de saúde ou ligar para a linha de Saúde 24 (agora SNS24). A esmagadora maioria, cerca de 90% dos episódios de urgência, no CHOeste não foi referenciado.


Conclusão: O número de episódios de urgência por mil habitantes no CHOeste (586) é inferior ao valor nacional (705) situando-se, assim, em posição intermédia entre Portugal e a média da OCDE (308). A realidade, quanto ao número de episódios de urgência, é muito heterogénea entre as unidades hospitalares que compõem o CHOeste: a Unidade de Peniche – serviço de urgência básica - é a que apresenta maior rácio por habitante, com 969 episódios por mil habitantes, enquanto a Unidade de Torres Vedras (dois serviços de urgência – médico-cirúrgico e pediátrico) apresenta um rácio de 415 episódios por mil habitantes. Por seu lado, a Unidade de Caldas da Rainha (três serviços de urgência - médico-cirúrgico, obstétrico e pediátrico) apresenta um rácio médio de 799 episódios por mil habitantes.

Este estudo ocorreu antes da crise pandémica - Covid-19 - e corrobora a perceção percebida sobre a desadequação da utilização dos serviços de urgência.

Palavras-chave:

SNS, Perfil de procura, Admissões na urgência exante pandemia, Episódios potencialmente evitáveis, Episódios de urgência desadequados

Referências

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Publicado

07-02-2021

Como Citar

Harfouche, A., Lourenço, I., & Soares dos Santos, E. (2021). Há adequação do perfil de procura pelos serviços de urgência? Um estudo "ex ante" surto pandémico – Covid-19. Lusíada. Economia E Empresa, (29), 11–42. https://doi.org/10.34628/nc2j-3792

Edição

Secção

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