Nota de abertura

António Jorge Duarte Rebelo de Sousa

Resumo


A presente edição da revista “Lusíada. Economia & Empresa” compreende um conjunto diversificado e, particularmente, interessante de artigos.

Assim, o Professor Fernando Martins apresenta um artigo intitulado de “Towards a more competitive labour market in Portugal: insights from a firm level survey”, no qual procura analisar as conclusões de um inquérito a empresas portuguesas conduzido pelo Banco de Portugal e realizado em 2014/2015, com o objectivo de identificar os principais choques com que as mesmas se confrontaram durante a crise ocorrida entre 2011 e 2014, no decurso da implementação do Acordo de Assistência.

De forma não surpreendente concluíu-se que se processou um ajustamento significativo ao nível do emprego, com acréscimo substancial da taxa  de desemprego, o que, segundo o autor, permite questionar o sistema de negociação salarial em Portugal.

Assim sendo, o autor apresenta sugestões no sentido de reformular o sistema de negociação salarial, com efeitos positivos no mercado de trabalho.

O Professor José Esteves Pereira contribui com um excelente artigo, intitulado “As ideias fisiocráticas em Portugal”, sublinhando, muito em particular, o contraste entre o interesse manifestado pelos assuntos relacionados com a agricultura e o seu valor económico em Portugal, nas últimas três décadas do século XVIII, e, ainda, as posições de teor mercantilista da governação pombalina.

Ainda segundo o autor, a publicação das “Memórias Económicas da Academia Real das Ciências de Lisboa, para o adiantamento da agricultura, das artes, e da indústria em Portugal, e suas conquistas” permitiu aceder a aspectos fundamentais que ilustram um ideário fisiocrático, perpassando um discurso em que “[…] está presente a preocupação crescente pelas actividades produtivas […]”, procurando-se sintonizar carências e apontar soluções.

O Professor Mário A.G. Antão, em conjunto com os Mestres H.M.G. Marques e M.C.J. Peres, participa com um artigo intitulado “Hipótese dos mercados eficientes: enquadramento e contributo”.

Os autores consideram que, a verificar-se a hipótese dos mercados eficientes, a pretensão de um investidor conseguir lucros anormais não se apresenta concretizável. Em boa verdade, os preços deveriam depender “em parte” de informação relevante para o mercado, mas esta deveria apresentar um comportamento aleatório, não se sabendo “[…] quando chega e se são boas ou más notícias”.

Os autores são levados a concluir que “[…] a hipótese dos mercados eficientes, mesmo quando desvalorizada por alguns, tem o seu lugar garantido ao lado de teorias estruturantes das finanças”, mas que, no mundo real, “[…] existirão investidores que são, seguramente, melhor sucedidos do que outros, quer porque estamos na era das transacções de alta-frequência, porque alguns podem ser ‘quase-racionais’ ou porque existe uma componente especulativa nos preços”.

Já o doutorando Mário Jorge Carvalho desenvolveu uma importante análise sobre “Curtotermismo na gestão bancária: o caso português”.

O autor desenvolve neste artigo o tema do “curtotermismo” como “[…] processo permanente e assumido de gestão na indústria financeira bancária”.

Segundo M. Carvalho, foi possível à gestão bancária, suportada na desregulamentação dos seus “stakeholders”, “[…] executar, no longo prazo, uma sucessão encadeada de políticas de curto prazo em desfavor de uma verdadeira abordagem estratégica”.

Em seu entender, “[…] esta estruturalidade de decisão curtotermista teve consequências muito gravosas na própria identidade, cultura e funcionamento das corporações envolvidas, bem como ao nível do enquadramento macroeconómico”.

Trata-se de um tema interessante que se inscreve na problemática mais abrangente  da emergência de uma nova tecnoestrutura empresarial com uma função-objectivo de curto prazo, problemática que pode e deve ser, ainda, mais aprofundada.

O Professor Pedro Gomes Rodrigues contribui com um artigo intitulado “A sociedade portuguesa e o inverno demográfico: cinco estratégias de política social”.

Com uma abordagem interessante e original, o autor chama a atenção para os desafios que o envelhecimento da população coloca às famílias e à sociedade, desafios esses que, em seu entender, poderiam ser atenuados com a adopção de uma política social adequada.

Mais especificamente, Pedro Rodrigues considera cinco estratégias possíveis, a saber, o investimento na prevenção da doença e do que designa de dependência, a adequação dos cuidados integrados de longa duração às necessidades existentes, a adaptação das condições de trabalho, dando aos mais velhos a oportunidade de participarem, a redução do “idadismo”, melhorando a governança e a harmonização dos espaços frequentados pelos mais velhos, com destaque para a habitação.

Importa, agora, referir uma muito interessante recensão do livro “Os grandes economistas: como as suas ideias nos podem ajudar”, da autoria de Linda Yueh (2019), do Clube do Autor, SA (Lisboa).

O responsável pela sobredita recensão é o Professor Doutor Virgílio Rapaz que nos relembra que Linda Yueh é “fellow” em Economia na Universidade de Oxford e Professora Adjunta de Economia na London Business School. Nesta sua obra, a autora visa analisar as ideias dos grandes economistas “[…] que transformaram a economia moderna, criando uma prosperidade sem precedentes”.

Os grandes economistas terão sido, conforme Virgílio Rapaz, na linha do pensamento de Linda Yueh, todos aqueles cujo trabalho efectivado teve implicações directas nos actuais problemas económicos ou contribuiu para o crescimento económico, no contexto de um mundo globalizado.

Os eleitos foram Adam Smith, Ricardo, Marx, Marshall, Fisher, Keynes, Schumpeter, Hayek, Robinson, Friedman, North e Solow. Para Virgílio Rapaz, a obra deveria intitular-se “Grandes economistas” em vez de “Os grandes economistas”.

Para Linda Yueh, os grandes economistas teriam em comum a formulação de “[…] modelos genéricos para dar resposta aos maiores desafios económicos”.

Virgílio Rapaz termina esta sua brilhante recensão relembrando Huxley que afirmava “[…] that men do not learn very much from the lessons of history is the most importante of all the lessons that history has to teach”.

Finalmente, o autor da presente “Nota de abertura” apresenta um artigo intitulado “Do Euro”, pretendendo analisar diversos aspectos da construção europeia e, muito em particular, a evolução da União Económica e Monetária (UEM), entrando em linha de conta com várias contribuições teóricas, dando especial relevância ao estudo realizado por Joseph E. Stiglitz “O Euro, como uma moeda única ameaça o futuro da Europa” (Bertrand, 2016).

O autor propõe um conjunto de reformas e de opções estratégicas que visam a ultrapassagem da presente situação crítica existente na Europa, em geral, e na UEM, em particular.

Sintetizando, trata-se de mais uma edição de uma revista que procura, à sua medida, marcar a diferença, analisar questões relevantes para a economia e a sociedade e, sobretudo, encontrar respostas para a complexidade dos problemas existentes.

Procura-se, parafraseando Alçada Baptista, substituir nós por laços, enfim, encontrar um sentido para o que se passa à nossa volta, que o mesmo é dizer, uma razão de ser para uma vida que, também, merece ser dedicada à investigação.


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